Cafeína e exercício


Podemos caracterizar a cafeína como uma das drogas mais consumidas em todo o mundo.

Encontrada em varias espécies de plantas como café, cacau, guaraná e presente também em alimentos industrializados como chocolate e refrigerantes, grande parte do seu consumo se dá visando seus efeitos estimulantes.

Há muitos séculos a substância é usada, no entanto sua utilização por atletas tem se tornado popular nas últimas décadas devidos aos estudos sobre seus benefícios ergogênicos.

Uma substância alcalóide, pertencente ao grupo das drogas classificadas como as metilxantinas (1,3,7- trimetilxantina), a cafeína é uma substância lipossolúvel, que é rapidamente absorvida pelo trato gastrointestinal, atingindo seus níveis de pico no plasma entre 30 e 120 minutos.

A substância age em quase todos os sistemas do organismo, sendo que seus efeitos mais intensos ocorrem no sistema nervoso central (SNC). Quando consumida em baixas dosagens, a cafeína, pode provocar aumento do estado de vigília, diminuição da sonolência, alívio da fadiga, aumento da respiração, aumento da liberação de catecolaminas, aumento da freqüência cardíaca, aumento no metabolismo e diurese. Em altas dosagens pode promover nervosismo, insônia, tremores e desidratação.

Sua ação no organismo é dependente, como outras várias substâncias ergogenicas, do tipo de exercício, intensidade e duração dos exercícios, dosagens, tolerância dentre outros fat
ores.

Vários estudos vem sendo realizados para estabelecer os limites de seu consumo e os reais efeitos ergogênicos com a sua utilização, como:

1) ingestão de 330mg de cafeína 1h antes de exercício em bicicleta ergométrica, a 80% VO2 máx, até a exaustão, com resultados evidenciando um aumento de 19,5% no tempo de endurance após a ingestão da cafeína (90.2 min vs 75.5 min, cafeína vs placebo, respectivamente).

2) implicações no metabolismo muscular durante 30 min de exercício em bicicleta ergométrica a 65-70% VO2 máx após a ingestão de 5mg/kg de cafeína, promovendo redução de 42% no consumo de glicogênio muscular e aumento de 150% no consumo de triglicéride muscular aumentou em 150%.

3) ingestão de 6mg/kg de cafeína, 1h antes de uma corrida de 90 min na esteira a 70% VO2 máx, por consumidores habituais de cafeína (200mg/dia), com indicação de que o habito no consumo neutraliza as respostas metabólicas aos efeitos normais da cafeína durante o exercício, eliminando seus efeitos ergogênicos.

4) diferença na ação da cafeína (4,45mg/kg) em atividade de endurance (60 minutos de corrida ou até a exaustão a 85% VO2 máx) quando consumida em cápsulas (pura) ou quando consumida em café. O primeiro grupo (cápsulas) teve aumento de 7.5 a 10 min no tempo total de endurance. Ficando ainda a sugestão de que outras substâncias contidas no café possam exercer algum tipo de efeito inibitório nos efeitos fisiológicos causados pela cafeína.

Especula-se que o principal efeito obtido com a utilização da cafeína, seja a capacidade de gerar aumento na disponibilidade de ácidos graxos livres para o músculo, resultando em um aumento da taxa de oxidação de lipídios para a energia. Desta forma, utilizando-se mais lipídios para a produção de energia a utilização do glicogênio muscular poderia ser reduzida retardando a fadiga.

A cafeína é uma droga considerada como doping pelo COI quando suas concentrações urinárias resultam em valores acima de 12mg/L. No entanto, estudos evidenciam que o consumo de 5mg/kg de cafeína promove benefícios ergogênicos sem atingir este valor na concentração urinária.


Referências:
Clark, N. (1997). Caffeine: a user's guide. The Physician Sports Med., 25(11), 109-110.
Graham, T.E. & Spriet, L.L. (1996). Caffeine and exercise performance. Sports Science Exchange: Gatorade Sports Science Institute 9(1).
Mc Ardle, W.D., Katch, F. I., Sports and Exercise Nutrition, Lippinkott Williamns & Wilkins, 1999.



Nutricionista Ricardo Sodré



Sócio-diretor da Nutconsult
Pós-graduado em Nutrição e Atividade Física/UERJ
Especialista em Nutrição Ortomolecular
Nutricionista UERJ / SEAP